• Nelson Moleiro e Sofia Fernandes

My Sweet November!


O mês de Novembro inicia com o Dia de Todos os Santos, ou Dia do Pão por Deus, ou Dia do Bolinho, vários nomes para uma mesma data, dependendo das crenças e motivações pessoais. Em termos práticos, voltámos a ter um feriado nacional, que para ser franco, dá-nos mais liberdade e oportunidade para gozar a data em questão. Em miúdo, andar ao bolinho era uma tradição de família, com numerosos primos, num contexto de convívio e onde reuníamos algumas guloseimas e tostões.

Hoje, em fase adulta, é oportunidade para relembrar tempos antigos e reavivar certas tradições. Uma dessas tradições é a confecção do "Bolinho" caseiro, e quando temos o privilégio de dispor as mãozinhas capazes de replicar receitas e sabores dos nossos antepassados, melhor ainda. Aliado a isto, um forno tradicional a lenha, ui ui, estamos no céu!

Pois é, hoje a Sofia e a Lucinda, sua mãe, trazem ao Táscuela as suas tradicionais merendeiras e broas dos Santos, bem confeccionadas no forno a lenha familiar, com o olhar atento e faro apurado da cadela Nina. Como esta tradição não pertence às minhas vivências e memórias pessoais fiquem com a sua descrição.

"A tradição ainda é o que era, pelo menos tentamos não quebrá-la e procuramos mantê-la bem viva, através do mais doce que o Dia do Bolinho tem, O Bolinho!

De véspera preparam-se os ingredientes, reunem-se os materiais necessários, e a lenha para dar vida ao forno. Logo pela manhã, arregaçam-se as mangas e metem-se as mãos na massa. Pela casa já se sente o cheirinho a canela e erva doce, ouvem-se as primeiras brasas a estalar, e sente-se o calor do forno no corpo. A massa, depois de bem amassada com todo o carinho, fica a repousar numa zona bem quentinha sob panos, para que comece a levedar. É uma fase importante para que a massa tenha o crescimento suficiente, de maneira a passarmos à fase seguinte.

O Dia de Todos os Santos tem um grande valor sentimental para nós, não só pelo simbolismo religioso inerente à data, mas também pela azáfama dentro de casa, o acender do forno, a preparação da massa, a reunião familiar, e os cheiros típicos do Outono. Faço sempre questão de estar presente, adiro às tradições e tento respeitá-las ao máximo, não permitindo que se desvaneçam no tempo. A receita destes bolinhos, que já vai na 3ª geração da família, continua a ser a melhor receita, única e insubstituível! Herança deixada pela minha avó materna.

É prática habitual aproveitarmos o calor do forno para assar castanhas, maçãs, preparar um bacalhau em crosta de broa, ou um cabrito assado caseiro. O resultado é maravilhoso. No final do dia, reunimo-nos à mesa e saboreamos estes pitéus, partilhamos histórias e aproveitamos o convívio em família."

- Sofia Fernandes -

A Pinga

De volta aos bolinhos, quando comemos estas iguarias doces dos Santos, nada melhor que acompanhar com um bom xiripiti. E na época de Outono, não faltam opções por onde escolher, desde ginja caseira, vinhos licorosos, colheitas tardias, vinhos do Porto, ou até a popular água pé. A minha escolha para hoje, trata-se de um vinho generoso, muito conhecido e famoso no nosso país, mas por vezes menosprezado e relegado para um plano secundário. Falo do Vinho Moscatel.

O Vinho Moscatel

A uva moscatel é das uvas mais conhecidas mundialmente, levando nome de Moscato, Muscat ou Moscatel. Teve a sua origem no Mediterrâneo, por terras gregas, e tanto se come à mesa, como se usa para fazer vinho, como espumantes, vinho de mesa, ou vinhos generosos para aperitivos e sobremesas. Gosta de climas quentes para mostrar toda a sua pujança e em Portugal existem duas regiões famosas de produção deste vinho, o Moscatel de Setúbal (Moscatel de Alexandria e Moscatel Roxo), compreendendo a zona de Palmela e Serra da Arrábida, e o Moscatel Galego, na zona do Douro, nos planaltos de Favaios e Alijó, lá no alto dos seus muitos metros onde o xisto transita para granito.

Mas apesar das várias aplicações da uva moscatel, é na produção de vinho generoso que é reconhecida e mostra verdadeira importância, tanto em Portugal, como além fronteiras. Tal como o vinho do Porto, o vinho Moscatel sofre de introdução de aguardente antes do fim da fermentação para que se transforme num vinho licoroso, com forte graduação, compreendida entre 16,5º a 22º.

Existem algumas diferenças entre o vinho Moscatel de Setúbal e o do Douro, mas hoje não vou aprofundar esse assunto, talvez numa outra oportunidade. Mas basicamente, os Moscatéis do Douro têm menos corpo que os de Setúbal, e dentro da oferta de Setúbal, os de Palmela são mais doces e menos frescos que os da Serra da Arrábida, que são muito famosos pela sua frescura e elegância, transmitidos pelo clima costeiro Atlântico. Obviamente, temos depois dezenas de variáveis à mistura, como a idade e complexidade trazida por estágios em barricas, que originam cores, aromas e sabores mais elaborados, únicos e imprevisíveis, podendo ir dos moscatéis mais simples e florais, aos mais complexos que tenhamos oportunidade de degustar.

O Moscatel em prova - Quinta da Barroca (Douro)

Já há uns pares de anos quando andei pela região vinícola do Douro, em passagem por Armamar, deparei-me com a Feira da Maçã local, com exibição de numerosos produtos regionais. Entre eles, encontrei este Moscatel, da Quinta da Barroca, apresentado num garrafão de 2 litros revestido a palha. Obviamente veio comigo.

Aroma

Aroma intenso e maravilhoso a flores, como laranjeira, tília e rosas, muito típico da casta, com nuances de citrinos como laranja e tanjerina.

Paladar

Alguns tostados, citrinos, e sabores melosos balsâmicos, com final de boca requintado e persistente.

Cor

Tom dourado apaixonante.

Servir bem fresco em género de aperitivo ou a acompanhar alguma doçaria.

Região do Douro

Clima temperado mediterrânico

Solo xistoso

Castas 100% Moscatel Galego

Colheita 100% manual

Vinificação em cubas de inox, com maceração pelicular relativamente curta, e fermentação interrompida por adição de aguardente vínica

Estágio de 2 anos em cubas de inox

Teor alcoólico de 17,10%

Açúcares Residuais 4,7º Baumé

Acidez total 3,57 g/dm3

No final de toda esta descrição da preparação dos bolinhos e broas dos Santos, e do vinho Moscatel eleito para os acompanhar, nada melhor que ficarem com as fotos do resultado final.

Um brinde!

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