• Nelson Moleiro

Quinta de Pancas Cabernet Sauvignon 1997 Special Selection


Quando uma pessoa é jovem e rookie nestas andanças procura absorver ao máximo todas as experiências, e de facto a experimentação é a arma secreta no mundo dos vinhos. Muito há para aprender e ler, mas também é na experiência que vamos percebendo algumas coisas. Não basta que nos digam: "devias experimentar o vinho tal do ano não sei quantos, é divinal". Há que tentar provar e ser criterioso, recorrer à autocrítica perante o que temos em frente, mais ou menos fundamentada, sem condicionantes nem medo de sermos contraditórios ou mesmo não concordantes com alguma critica dita especializada. No fundo, sermos fiéis a nós próprios e a quem nos segue.

Desta vez quis trazer uma experiência nova para mim próprio, começar a entrar no paradigma dos vinhos envelhecidos, procurar aspectos sensoriais distintos num vinho velho, quer tenha envelhecido para o bem ou para o mal. Sim, como bem sabem, nem todo o vinho é adequado para guarda, aliás só uma ínfima parte do vinho que se produz tem potencial de envelhecimento em garrafa, o resto destina-se a consumo jovem. Indo ao que interessa, trouxemos um Cabernet Sauvignon de 1997, Quinta de Pancas Special Selection, um vinho regional da Estremadura naquela época, agora considerado vinho da região de Lisboa. Obviamente não estamos perante nenhuma beldade Bordalesa, das melhores vinhas de Bordéus, ou desse mundo fora, onde se produzem os melhores Cabernet Sauvignon. Mas temos este Cabernet, talvez dos primeiros em Portugal, e agora passados 20 anos lá abri uma das minhas 3 garrafas. Não acham fascinante saber o que 20 anos fizeram ao vinho no interior desta garrafa? Eu acho.

A uva Cabernet Sauvignon sempre foi reconhecida por ter capacidade de envelhecer e desenvolver-se bem em garrafa, pois o tempo além de suavizar os taninos austeros, (já que estamos na presença de uma casta muito tânica), permite o aparecimento de novos sabores e aromas que aumentam a complexidade dos vinhos. Esta natureza tânica do Cabernet é um aspecto fundamental e que o enólogo tem sempre em conta perante o perfil de vinho que pretende fazer, com períodos de maceração maiores ou menores, para maior ou menor extracção de taninos e cor respectivamente. Normalmente quando se pretende que o vinho envelheça, recorre-se por exemplo ao estágio em madeira, (um ou diferentes tipos de carvalho), de forma a tornar os taninos mais suaves mediante processos químicos de oxidação entre a madeira e o vinho, que levam à polimerização desses taninos, "amaciando-os" no nosso paladar. A madeira vai fornecer ao conjunto, neste caso o Cabernet Sauvignon, sabores adicionais de especiarias, entre outros, que se juntam aos aromas e sabores característicos da uva, ameixas negras, groselhas, pimentos ou traços de especiarias.

Vamos então transmitir a nossa experiência. Na abertura da garrafa, reparei num ligeiro sangramento na rolha, muito ténue mas já a iniciar, que me transmitiu imediata preocupação, "esta porra já virou vinagre". Mas lá sacada a rolha, já sofredora, lá respirou o bicho. Foi decantado e deixou-se a respirar por uns 20 minutos. Na cor nada de surpresas, os tons acastanhados e perda da cor viva já eram esperados, no nariz os aromas de frutos negros muito ténues mas com forte componente especiada. Foi na boca que surpreendeu, baixa percepção alcoólica, com sabores complexos difíceis de explicar, mas onde ainda existe alguma acidez a fornecer vivacidade ao conjunto. Alguns sabores da fruta são sobrepostos pelas especiarias e componente fumada, inerentes à casta mas também ao envelhecimento. Corpo médio e seco, sem sinais de oxidação exacerbados. Diria na minha opinião que já ultrapassou em poucos anos a data ideal de consumo, ou mesmo o seu auge, mas esta complexidade e unicidade são fascinantes.

Quinta de Pancas Cabernet Sauvignon 1997 Special Selection

Castas: 100% Cabernet Sauvignon

Teor Alcoólico: 13% Vol.

PVP: +/- 19€ (a quem encontrar)

#QuintadePancas #CabernetSauvignon #VinhoVelho

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