• Nelson Moleiro

Jantar Vínico Monte da Raposinha no Restaurante Golden


A nossa experiência mais recente veio a convite de um nosso conhecido aqui no Táscuela, o Fernando Bravo, um verdadeiro winelover, grande apreciador de bons vinhos portugueses e sócio-gerente de um Hotel Rural na zona de Alcobaça, o Vale D'Azenha Hotel Rural & Residences. Este era um lugar ainda desconhecido para nós, um projecto recente com ano e meio de vida, que visa captar um mercado turístico selectivo e criterioso, e a par da natureza e ruralidade, aposta na centralidade geográfica e oferta distinta. É um espaço que merece sem qualquer dúvida a visita, algo que um dia farei de uma forma mais calma e apropriada. O que hoje falamos é do Restaurante Golden, espaço inserido no complexo hoteleiro, onde muitas vezes se organizam jantares vínicos em parceria com alguns produtores e distribuidores, de forma a promover e aliar a gastronomia regional com os bons vinhos do nosso Portugal.

O Fernando é muito activo no mundo dos vinhos, sempre em cima do acontecimento, e além do elevado conhecimento gosta do debate de ideias e conceitos. Foi assim que conheceu o Táscuela e é para isto mesmo que cá andamos, aprender com quem sabe. Este jantar em particular trouxe ao Golden os vinhos Monte da Raposinha, uma empresa familiar mantida ao longo de gerações que se situa perto de Montargil, do microclima da barragem, e sendo assim estamos na presença de vinhos do Alto Alentejo. Para quem tem acompanhado mais de perto e atentamente, terá notado que não tenho concentrado as minhas preferências nos vinhos alentejanos, por aspectos já abordados anteriormente, mas como os vinhos desta casa eram-me em grande parte desconhecidos, à excepção do Furtiva Lágrima, o seu ex-líbris, então porque não? Muitas vezes, para não dizer quase sempre, obtemos excelentes experiências e surpresas, e contrariamos as nossas assumpções e pressupostos iniciais. Quanto aos vinhos Monte da Raposinha, já lá vamos.

Restaurante Golden

O restaurante faz parte da unidade hoteleira, mas também está aberto ao público em geral, tendo por pressupostos a qualidade e excelência da gastronomia local aliada a uma boa oferta de vinhos. O que me agradou em especial foi a aposta numa carta onde se privilegiam os produtos e ingredientes endógenos, valorizando o produto nacional e a oferta regional, tudo bem suportado na premissa que ingredientes de excelência, aliados a uma cozinha minimalista, originam os melhores pratos gastronómicos. Não me posso estender muito porque foi a minha primeira visita, mas pelo menu oferecido neste jantar certamente ficarão com uma ideia do que acabo de falar.

De forma a conseguir uma excelente harmonização com o portefólio Monte da Raposinha, o Golden concebeu um menu diferente, Carapaus Enjoados e Choquinhos Fritos com tinta para acompanhar o Rosé, no prato de peixe um Sequinho do Mar, para mim a grande surpresa da noite, um prato que consiste numa posta de raia coberta com petingas em cama de pão frito em azeite e alho. Foi servido bem acompanhado com Athayde Reserva Branco. Para os tintos ficou reservado um Entrecosto de Vitela assado no forno com batatinhas e grelos salteados, iniciando-se com Monte da Raposinha Tinto e terminando com Athayde Grande Escolha Tinto que se prolongou até à sobremesa, um bolo de chocolate, intitulado de Delícia de Chocolate.

Deixo-vos algumas fotos desta degustação, o entusiasmo em aprender mais com a enologia do Monte da Raposinha através de João Ataíde e Paula Bragança fez com que me perdesse em alguns pormenores e não tenho sequer uma foto do maravilhoso entrecosto de vitela. Mas a vida também tem de ser isto mesmo, aproveitar os momentos no seu todo, e nada melhor que visitarem o restaurante, provarem e verem com os vossos próprios olhos.

Os Vinhos Monte da Raposinha em Prova

Bem, mas falando de vinhos, que é para isso que cá andamos. O primeiro vinho a ir para o copo foi um vinho branco, Nós 2016, um vinho para ser bebido sem pensar muito, directo, simples, com perfil aromático cítrico e uma ténue fruta tropical, com acidez viva e equilibrada, fresco, um bom vinho para abrir o apetite. Temos um lote de Sauvignon Blanc, Antão Vaz e Arinto, com a marca da enologia de Susana Esteban.

A refeição iniciou-se com o carapau enjoado e os choquinhos fritos, e com eles veio o Monte da Raposinha Rosé 2015. Uma cor salmão carregada, límpida e que se mostrou um rosé muito gastronómico, tanto no aroma como no palato. Feito com Touriga Nacional e Aragonez, com aromas de fruta vermelha e algum vegetal, mas é na boca que cresce e se diferencia, muita intensidade e espectro de sabores alargado, com alguma componente do tanino presente tornando-o um rosé musculado, mas sem retirar elegância já que a acidez viva está bem patente a transmitir frescura ao conjunto. Óptimo rosé, boa sugestão para estes dias de verão!

Com o desenrolar do jantar chegou à mesa o prato de peixe, para mim sem dúvida alguma o destaque da noite no que toca à comida. Sequinho do Mar (posta de raia com petingas no topo, em cama de pão frito em azeite e alho), uma verdadeira combinação de sabores primários que no todo dão origem a uma autêntica iguaria, uma relíquia da cozinha endógena. Os meus parabéns ao Chef e à autoria deste prato, vale uma daquelas estrelas do pneu para mim. Para acompanhar este prato, como na generalidade na vida, a reciprocidade necessária para tudo dar certo, Athayde Reserva Branco 2014, um blend de Chardonnay e Sauvignon Blanc com 8 meses de estágio em barrica de carvalho francês. Um branco maduro, com bastante estrutura, de perfil aromático bastante complexo para mim, com algum carácter cítrico maduro talvez, na boca muito untuoso e cheio, floral e com elevada persistência de boca. Um vinho branco para pratos complexos, o dito branco de Inverno, ou como gosto de chamar, de transição de estação.

Os tintos vieram com o entrecosto de vitela e seguiram até à sobremesa, numa evolução progressiva, Monte da Raposinha Tinto 2014 e Athayde Grande Escolha Tinto 2013. O Monte da Raposinha Tinto com Touriga Nacional, Aragonez, Alicante Bouschet e Syrah. Antes de avançar com qualquer comentário vou confidenciar um detalhe. Estes vinhos que provei, principalmente os tintos, às cegas nunca diria serem alentejanos como primeiríssima hipótese. A frescura, a boa relação da fruta e da componente floral, com elegância e frescura que não atribuo ao grosso dos vinhos alentejanos, vinhos que regra geral e salvaguardando excepções, considero mais pesados, alcoólicos e "quentes". Este microclima da barragem de Montargil, aliado a escolhas racionais e criteriosas de enologia, permitem à Raposinha ter estes tintos diferenciados e fora do panorama global.

O Monte da Raposinha Tinto elejo como boa escolha qualidade/preço. Aromas frescos e intensos a fruto vermelho, a transparecer frescura ao primeiro impacto, na boca a acidez surpreende e permite um equilíbrio perfeito com a fruta, dando lugar a um vinho fácil de beber, sedutor, delicado, aveludado, com boa relação de taninos, e onde o estágio parcial em carvalho francês introduz alguns sabores secundários muito ténues, sem qualquer exacerbação. Gostei muito!

Quanto ao Athayde Grande Escolha Tinto 2013, um perfil diferente. Touriga Nacional, Syrah e Alicante Bouschet, com estágio de 18 meses em carvalho francês, onde a complexidade de especiarias no nariz é notória, já algum tostado, mas também o carácter vegetal da Touriga a relacionar-se bem com os aromas e sabores do fruto do Syrah e Alicante. É um vinho mais envolvente, igualmente sedutor com grande estrutura e corpo, sem descurar uma vez mais a frescura e acidez. Pode parecer repetitivo, mas são características e aspectos relevantes que destaco nestes vinhos Monte da Raposinha. Mas serão mesmo alentejanos?

Fora do âmbito do programa deste jantar, o Fernando ainda trouxe uma surpresa final para a mesa, umas garrafas de Monte da Raposinha Tinto 2007, provenientes da sua "vinoteca" pessoal. Foi um extra para finalizar este óptimo convívio. Algum couro, vegetal, ainda com alguma frescura e adstringência. Talvez já tenha passado o ponto ideal de consumo, mas é sempre um enorme prazer e mistério avaliar a evolução dos vinhos, as alterações químicas que surgem do estágio em garrafa, algumas para o bem, outras para o mal.

Um enorme agradecimento a toda a equipa do Vale D'Azenha Hotel Rural & Residences e do seu Restaurante Golden, em especial ao Fernando Bravo, com quem contacto mais pessoalmente, também ao João Ataíde e Paula Bragança pela nobre explicação e demonstração dos seus vinhos Monte da Raposinha.

Um brinde a todos!

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