• Nelson Moleiro

Quinta da MARKA


Para quem me vai acompanhando, bem sabe a paixão que nutro pelo Vale do Douro, a grandiosidade dos seus vinhos aliada à beleza natural e envolvência de toda a região. O serpentear do Rio Douro por vales e encostas é místico, único e deveras apaixonante. Como tal, sempre que é possível, é região que o meu GPS não dispensa. Vinhos, turismo, descanso, natureza, cultura, isto é a zona demarcada do Vale do Douro, o expoente máximo no Enoturismo nacional.

No último giro, o destino levou-me a conhecer a Quinta da MARKA, localizada na margem direita do Rio Douro, meio caminho entre o Peso da Régua e o Pinhão para simplificar. Situa-se entre duas Quintas históricas e bastante conhecidas, Quinta do Crasto e Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo.

Esta é uma propriedade relativamente recente, e a sua componente de Enoturismo também. Difere muito de outros turismos de habitação na região pelo carisma familiar que oferece, poucos quartos (7 suites), ambiente intimista e uma cozinha tradicional, onde poderemos acompanhar as iguarias com vinhos da casa. A simpatia e relação muito pessoal com os hóspedes é aspecto marcante e diferenciador, tudo é tido em conta, nada é esquecido. A estadia decorreu num fim-de-semana no início de Setembro, saí com o sentimento que já conhecia aquele espaço e primava com as pessoas desde sempre, realmente reconfortante. Senti-me tão confortável, como se estivesse verdadeiramente em casa.

A Estação de Comboios do Ferrão fica a um passo da Quinta da MARKA, mesmo ali em baixo junto ao Rio, sugiro virem de comboio desde o Peso da Régua directamente para o hotel. Para além da beleza da viagem, é rápida e evita uma viagem de automóvel mais demorada e cansativa, uma mera sugestão turística já que a existe essa possibilidade.

História

A actual Quinta da MARKA situa-se na também designada Quinta do Espinhal de Baixo, uma propriedade de 14 hectares adquirida por José Carlos Agrellos em 1991. Em 2001 o projecto iniciou o percurso que o conduziu à sua actualidade. A Quinta da MARKA no que respeita aos seus vinhos Durham-Agrellos, despertou no panorama dos vinhos do Douro inicialmente com o MARKA Reserva Tinto 2002 e o Colheita 2003. Desde então, este projecto vinícola tem conhecido crescimento em termos qualitativos, onde são usadas as melhores castas da região, Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Tinta Amarela e Tinta Barroca, sendo que uma vasta área da vinha é composta por vinhas velhas com mais de 80 anos. Toda esta riqueza aliada ao terroir único, permitem produzir vinhos de enorme complexidade, riqueza e identidade própria. Nesta cota baixa de altitude permanecem as videiras das castas tintas, quanto às castas brancas, a Quinta da MARKA recorre a parcerias com viticultores da região, com vinhas localizadas em regiões de maior altitude (500 a 600 metros). É daqui que surgem as uvas que permitem produzir os seus vinhos brancos, com mais frescura e boa acidez. Actualmente a enologia encontra-se ao cargo de Carlos Agrellos, por ele passa toda a estratégia dos vinhos casa.

Em 2008 inicou-se uma nova etapa na reestruturação da Quinta com a construção de uma nova Adega, e mais recentemente o projecto ficou concluído com o lançamento da oferta no âmbito do turismo de habitação, com a abertura de 7 luxuosas suites.

Ponto muito interessante e importantíssimo, sabem o porquê do nome MARKA? Advém da homenagem a MARjorie KAthleen Durham Agrellos, falecida esposa de José Carlos Agrellos, o obreiro, que foi uma grande defensora e impulsionadora deste projecto. Também muito graças a esta senhora, a Quinta da MARKA está hoje de pedra e cal em pleno coração do Douro.

Enoturismo

A recepção dos hóspedes cabe, em termos vínicos, ao rosé da casa, Aromas da Vinha Rosé, penso que colheita 2016 actualmente, e elaborado de Tinta Roriz (espero não estar a cometer um erro), um bom parceiro que optei por degustar mesmo junto à piscina com magnífica vista sobre o Douro.

A minha visita à Quinta ocorreu em plena azáfama de vindimas, pensei à partida que a visita à Adega e o consequente aprofundamento de conhecimentos sobre os seus vinhos fosse praticamente impossível, contudo Carlos Agrellos, com a sua enorme simpatia e simplicidade, disponibilizou um pouco do seu precioso tempo para me receber e debatermos algumas ideias, que sortudo. Além da magnífica visita guiada à Adega tive o prazer de presenciar o início da vinificação das colheitas de 2017. Um dos aspectos que me surpreendeu mais, foi a limpeza e profissionalismo empregue, uma pessoa julga que época de vindimas é sinal de caos nas Adegas, pois ao final do dia parecia que nada se tinha passado por aquele espaço, tudo com altos padrões de limpeza, controlo e qualidade. A cereja no topo de bolo foi o privilégio de poder privar com Carlos Agrellos no seu “laboratório”, onde testava certos mostos tintos, e equacionava possibilidades de blends futuros. O cheiro a fruta pura, aromas primários em bruto, numa fase ainda tão precoce, permitem uma pessoa atestar dos altos padrões que os vinhos do Douro atingiram. Ainda retenho as memórias sensoriais e organolépticas da Touriga Nacional, meu Deus, adorei!

É importante absorver experiências deste género, sobretudo nós, os ditos chatos inconvenientes, que só escrevem e são em tantas ocasiões injustos para com todo o processo e principalmente as pessoas que trabalham com afinco e dedicação na arte. Não nos podemos focar exclusivamente no produto final.

Saí do encontro com uma pergunta que coloquei a mim mesmo mas também coloco a todos vós. Estes vinhos tão complexos e estruturados que são produzidos no Vale do Douro, únicos e singulares, não deveriam fazer com que começássemos a falar mais de terroir? Os franceses fazem e sempre fizeram tão bem isto, e neste momento o Vale do Douro é mesmo um terroir único que distingue os seus vinhos em qualquer parte do mundo. Outro aspecto, esta colheita de 2017 foi tão falada como problemática por ter sido um ano seco, quente e difícil. Fomos em início de Setembro, talvez se tenha começado a vindima 3 semanas antes da data habitual noutros anos. Será motivo para dramas? Alarmismos? As pessoas sabem o que fazem, se o ano é difícil, se é preciso colher mais cedo as uvas para preservar a qualidade do fruto, qual é o stress? É na capacidade de adaptação que reside a força do homem, já Darwin o defendia. Não somos nós os seres mais racionais? Pelo menos deveríamos ser.

Vinhos

Quanto aos vinhos, o portefólio engloba vinhos tintos, brancos e mais recentemente um rosé. Da minha experiência de estadia na Quinta da MARKA acabei por contactar com dois deles, o MARKA Branco 2016 e o Vale do Tua Reserva 2013, tinto. A degustação foi à mesa, ao jantar, acompanhados pela cozinha tradicional da casa, bacalhau com broa, arroz de pato e costeleta de vitela grelhada, belas iguarias de todos nós.

MARKA Branco 2016

O único vinho que conhecia deste produtor era mesmo o branco, mas de colheita anterior, de 2013, do qual ainda tenho algumas garrafas em garrafeira (Gouveio, Viosinho e Moscatel Galego). Esta colheita de 2016 já é composta por Viosinho, Rabigato e Códega do Larinho. A meu ver melhorou a olhos vistos, mais mineral, boa acidez e secura. Combinação harmoniosa da mineralidade do terroir do Douro com a fruta, a nova mudança de paradigma que me agrada, os brancos durienses pendiam demasiado para a fruta, e tenho andado a ter excelentes experiências com Rabigato.

Vale do Tua Reserva 2013

Aqui temos o que esta região única nos consegue oferecer de melhor! Dos vinhos mais encorpados do mundo, aliado à frescura e acidez. Das melhores uvas da propriedade (Touriga Nacional e Touriga Franca), nasce este grandioso vinho. Delicioso aroma floral e bastante complexo, na boca fruto preto com taninos bem sedosos e redondos, fresco e elegância nobre, boa estrutura. Quanto à madeira, muito subtil, estando o vinho numa altura muito apropriada para ser bebido, se bem que se conservará muito bem em garrafa por mais uns tempos.

Um ex-líbris da casa, e volto a insistir, um exemplo perfeito da demarcação deste terroir que tanto falo.

Quinta do Espinhal de Baixo

E.N. 322-2, Lugar Do Ferrão, Covas do Douro, Região do Norte 5085-207 Portugal

Tel: +351 226 187 069

Tel: +351 930 470 354

www.quintadamarkadouro.com

www.durhamagrelllos.com

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