• Nelson Moleiro

Vinhos da Sardenha, o lado menos conhecido da Ilha


Quando falamos em turismo de eleição na Europa, a ilha da Sardenha localizada em pleno Mar Mediterrâneo, surge à cabeça como uma das principais referências, bastante famosa e reconhecida pelas sua praias de areia branca, águas cristalinas, paisagens paradisíacas e exclusividade. É um destino de sonho, envolto em glamour e luxos pouco acessíveis a nós, os comuns mortais. Foi este paraíso que escolhemos como destino principal de férias em 2017, elegendo-se o mês de Setembro como a melhor opção. É normalmente uma excelente alternativa, evitam-se enchentes, os preços baixam substancialmente, e as temperaturas médias de final de Verão ainda nos permitem fazer umas coisas engraçadas. É uma ilha extensa, de grande dimensão, que deverá ser percorrida obrigatoriamente de carro. A Costa Smeralda, localizada a Noroeste, é a zona mais desenvolvida a nível turístico e onde se encontram as praias e locais mais exclusivos. Foi aqui perto que estabelecemos base durante 10 dias, na pequena vila de Porto Rotondo a cerca de 10 km da cidade de Olbia.

Feita esta pequena nota introdutória, hora de falar do tema que pretendo trazer à baila, vinhos e afins. Viajar é dos meus passatempos preferidos, não existe investimento mais certo e enriquecedor, qualquer euro empregue em viagens é bem aplicado, é das formas mais genuínas e eficazes de crescermos tanto a nível pessoal como culturalmente. E seguindo esta linha, a melhor forma de conhecermos os locais que visitamos, é através da sua gastronomia e produtos regionais. Temos que seguir a velha norma,"to meet truly a place, act like a local". De todas as ofertas pomposas e dispendiosas existentes na Sardenha, existe um tesouro pouco conhecido, ainda pouco explorado, falo doos seus vinhos. Uma oferta vasta e diferenciada onde destaco os Vermentino, casta branca que origina alguns dos melhores vinhos brancos da ilha, e o Cannonau, uva tinta responsável pela produção mais massiva de vinhos tintos da ilha. Provei várias referências, de várias gamas, desde segundas e terceiras linhas até os topos de gama. Uma conclusão simples, Vermentinos di Gallura Superiore DOCG, grandes. Já os tintos, onde predominantemente experimentei monocastas Cannonau mas também alguns blends, algo fora do perfil que me agrada. Os rosés, bastante estruturados, mostram-se altamente gastronómicos.

Vermentino di Sardegna

Estando situada em pleno mar mediterrânico, a Sardenha apresenta um clima quente e seco, mas os ventos marítimos e a amplitude térmica elevada, com noites frias e dias quentes, originam uvas que no processo de maturação albergam excelentes propriedades que permitem transmitir acidez, salinidade e frescura aos seus vinhos brancos, que bem aproveitadas permitem obter vinhos agradáveis, com boa correlação entre fruta, estrutura e álcool. De facto, podemos ter vinhos Vermentino desde os mais estruturados aos mais frescos e simples, estes mais indicados a serem bebidos a solo ou como aperitivo. Do que provei e contactei, o destaque nestes vinhos está no vinho Vermentino oriundo da região Norte da Ilha, onde são produzidos os Vermentinos di Gallura DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantia), mais distintos e elegantes, a conseguirem expressar uma mineralidade, salinidade e acidez interessantes. Como são vinhos ainda pouco conhecidos conseguem-se bons preços em alguns exemplares, tanto junto dos produtores como em garrafeiras. Destaco dois exemplares, Sciala Vermentino di Gallura DOCG que bebi em visita ao produtor, Vigne Surrau, e o Pala Stellato Vermentino DOC, da Pala Wines.

São vinhos que apresentaram aromas vivos mas elegantes de frutas e flores brancas, pêra, maçã verde, alguns citrinos e toranja. Em boca revelam corpo médio, mas com prova bastante complexa, notável prolongamento em boca, com um toque amargo, revelando o seu carácter vegetal e salino. A grande surpresa tive principalmente no Sciala, a mostrar uma ligeira cremosidade, deixando um toque oleoso que cobre e limpa o palato. De salientar que todos os vinhos que bebi serem de colheitas recentes e que na sua produção, fermentam e estagiam somente em inox, não recorrendo a madeira. Quem visitar a Sardenha terá que obrigatoriamente provar e conhecer os seus melhores Vermentinos.

Cannonau

Este é o vinho que domina a ilha, com produção generalizada em todo o território, mas com foco na zona central. A uva Cannonau, conhecida por Grenache em França e Garnacha em Espanha, desenvolve-se bem nestes climas quentes e em solos pobres, limitando a sua produtividade mediante o stress a que está submetida. São contudo vinhos que me desagradam, altamente carregados de álcool, até ao último dígito caramba! Não sendo muito carregados na cor, manifestam elevada concentração e elevada extracção, com baixa acidez e estrutura tânica muito macia e suave. Alta intensidade aromática com notas de fruta vermelha madura como ameixas negras, que se evidenciam sobremaneira em boca em conjunto com sabores de café, chocolate e tosta, transmitidos pelos estágios em barricas de carvalho. São vinhos que segundo me disseram deverão evoluir positivamente com o envelhecimento, o que duvido seriamente pela presença de taninos tão abichanados. A meu ver ganhariam mais se usados em vinhos de lote. Pelo menos essa é a minha ideia e opinião, já que o vinho tinto mais agradável que bebi por lá foi um Kre'u Tinto 2012, um vinho orgânico proveniente de vinhas velhas autóctones, 90% Monica di Sardegna e 10% Bovale Sardo.

Agriturismo

Teria muito para falar e sugerir a quem queira visitar a Sardenha. Não vos vou sujeitar a tamanho massacre, contudo estarei sempre disponível a qualquer informação e dicas que pretendam. Mas não poderia deixar passar em branco esta sugestão, a meu ver obrigatória, uma experiência de Agriturismo. Acabámos por escolher o Agriturismo Candela, mas as hipóteses são múltiplas. Consiste numa experiência gastronómica bastante completa, proporcionada por quintas locais, tudo com produtos de fabrico próprio, horticultura, queijos, carnes e vinhos, num autêntico banquete. Os preços rondam os 35€ por pessoa, tudo incluído, um alinhamento de cerca de 12 pratos com entradas, massas, carnes (inclusivé leitão, o famoso porcetto), e sobremesas. Só existe um requisito, levar muito apetite. Uma óptima forma de conhecer e provar produtos regionais e a cozinha tradicional autêntica. Ninguém poderá dizer que conheceu um local se não experimentou a sua gastronomia. Comida e vinhos são cultura.

Para quem tiver curiosidade deixo uma Galeria de Fotos

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