• Nelson Moleiro

Tintos à parte, falemos de Brancos no Portugal dos Pequeninos


Entramos num mês difícil, mês dos jantares e convívios, de encher a mula e desbastar garrafeiras, a silly season dos enófilos com dezenas de exibições públicas das suas melhores garrafas nas redes sociais, numa eterna comparação de pilinhas. "Ah a minha é melhor que a tua, é de 81 e é magnum!". Perdoem-me o termo e comparação mundana, mas às vezes é mesmo isso que parece. Hoje não trago nada disso, muito pelo contrário, apresento quatro propostas de vinhos brancos, pequenos no preço, grandes em qualidade. Opções certas e de óptima relação qualidade/preço, num autêntico Portugal dos Pequeninos, já que todos merecem bons vinhos à mesa na Ceia de Natal. E não me venham cá com bacalhau, e o asa branca e o asa preta, perus assados e o camandro, se é tinto ou branco, para as entradas ou prato principal. Sugiro aqui vinhos todo-o-terreno para vos acompanhar do início ao fim da refeição. Durante décadas apaparicou-se o tinto, hoje dou a mão ao vinho branco. Tu que és poupadinho e forreta vais-me agradecer.

Bons Ares Branco 2015 (Douro)

Chaminé Branco 2015 (Alentejo)

A Descoberta Branco 2015 (Dão)

Quinta da Murta Branco 2012 (Bucelas)

Como podem ver fiz uma escolha ecléctica, fui buscar vinhos a quatro regiões, todos eles bebidos neste último trimestre, e ali na janela dos 5 a 8€. Desta forma não me podem acusar de ser tendencioso em relação a alguma região em particular, para além de que cada um poderá pender a sua escolha para um gosto e perfil regional mais do seu agrado. Quem me tem acompanhado regularmente, facilmente perceberá que esta escolha assenta em pressupostos básicos e simples, um vinho equilibrado, de álcool moderado, com boa fruta no aroma e paladar, mas sem exacerbações, e boa acidez natural que dê nervo e frescura ao conjunto. Ao fim ao cabo, um vinho harmonioso, que seja gastronómico e fácil de beber para todos. Todos queremos beber vinho, não somente prová-lo.

Chaminé Branco 2015

Castas: Verdelho, Sauvignon Blanc, Antão Vaz e Viognier

Região: Alentejo

Teor Alcoólico: 12,5% Vol

PVP: +/- 5€

Uma referência que é fácil comprar em qualquer lugar, daquelas compras certas ano após ano, mostrando alguma uniformidade em todas as colheitas, e que tem melhorado gradualmente a meu ver, mais fresco e apelativo. Dos vinhos apresentados é talvez aquele que apresenta mais marcadores aromáticos de fruta exótica, contudo tem um lado herbáceo e vegetal que o torna interessante e equilibra, tornando-o mais seco e apelativo. Apesar da sua leveza e juventude, mostra excelente presença em boca, com notável acidez, ainda mais quando falamos em Alentejo. Um facto que facilmente se perceberá quando verificamos que algumas das uvas que compõem o lote são provenientes de vinhas localizadas na Zambujeira, junto à costa, permitindo trazer alguma frescura, tarefa nada fácil de atingir num branco da planície Alentejana.

Bons Ares Branco 2015

Castas: Rabigato, Viosinho e Sauvignon Blanc

Região: Douro

Teor Alcoólico: 14% Vol

PVP: +/- 8,5€

Este é um vinho duriense de vinhas de altitude da Quinta de Bons Ares, situada no Douro Superior, concelho de Vila Nova de Foz Côa. A presença de uvas brancas em cotas mais altas (600 metros) com um clima mais ameno no Verão, e logo uma maturação mais lenta das uvas, confere ao Rabigato e Viosinho propriedades que facilitam a presença de boa acidez natural no vinho. As propriedades graníticas dos solos transmitem mineralidade extra que mescla bem com a fruta, em particular aquela inerente ao Sauvignon Blanc. É um vinho que apesar de já estar bom, merece ser bebido mais tarde, ainda apresenta alguma dominância da fruta no nariz, fruta fresca e de boa qualidade. Na boca, a mineralidade e apontamentos vegetais harmonizam bem com a fruta mais madura, tornando-o mais suave e desmistificando os 14% de álcool. Sente-se aquela secura prolongada no paladar a puxar a comidinha para a festa. Mais uma proposta a considerarem.

A Descoberta Branco 2015

Castas: Encruzado, Malvasia-Fina e Gouveio (ou será Verdelho?)

Região: Dão

Teor Alcoólico: 12,5% Vol

PVP: +/- 5€

Este é o meu porto seguro. Sou um apaixonado pelos vinhos da Casa Passarella, e atribuo a este Descoberta Branco o título de melhor vinho no binómio qualidade/preço. Falamos de consistência e qualidades ímpares colheita atrás de colheita, e se há vinho onde aposto 5 paus de caras, é este. Aliás, tomariam muitos vinhos com outros supostos atributos chegarem aos calcanhares do Descoberta. Não há muito a dizer porque é tudo tão simples, tal como o Descoberta em si, autêntico, delicioso e barato. E é isto, vinho, simplesmente vinho! Sendo jovem, apresenta uma invejável elegância, aromático quanto baste, ali entre a fruta e o floral sempre com a discrição que um bom Dão exibe. Óptima acidez envolta por apontamento vegetal que o torna uma autêntica besta gastronómica. Às cegas, é vinho de elite, é vinho para Rei.

Quinta da Murta Branco 2012

Castas: Arinto

Região: Bucelas

Teor Alcoólico: 12,5% Vol

PVP: +/- 8€

Al last but not least, Bucelas power! Já passaram 5 anos desde a colheita deste Quinta da Murta Branco. Temos aqui a uva Arinto, não estivéssemos nós em Bucelas. O meu primeiro contacto com vinhos da Quinta da Murta foi neste ano de 2017, um crime, confesso. Impulsionado pela assertividade e crença do enólogo da casa (e também pela sua porrada, ahaha), o Hugo Mendes, tive o privilégio de finalmente receber garrafas de Murta no conforto do meu lar. Desde então, já tive três experiências de prova com o Quinta da Murta Branco 2012, a acompanhar entradas, um peixe grelhado e também bacalhau no forno. Passou sempre com distinção. É um vinho bastante limpo, tem no nariz um aroma frutado, leve e sedutor. Sendo um vinho que fermentou só em inox, na boca eleva-se pela óptima estrutura que o Arinto lhe impôs após alguns anos em garrafa. Muito bem equilibrado, ligeiro carácter vegetal que aprecio, boa mineralidade e salinidade Atlântica a transmitir a frescura necessária. A invejável acidez natural dá-lhe o nervo que permite afirmar-se, "sim sou de Bucelas!". A solo ou à mesa é prazeroso de beber, copo atrás de copo, promovendo tremenda satisfação a qualquer um que o beba, independentemente do seu conhecimento ou experiência vínica. Terroir, simplicidade e crença no que se acredita, três pressupostos que dão origem a um grande vinho a preço muito apetecível para tamanha qualidade. Grande manifestação do terroir de Bucelas Hugo! Terroir, terroir, terroir, terroir, pronto já chega!

Quem é amigo, quem é? Agora não digam que eu não avisei.

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